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Política

É preciso ser um político para defender os interesses dos mais necessitados, ajudá-los a suprir suas necessidades e proporcionar melhores condições de vida oferecendo justiça social?
Quando as igrejas atuam conforme o propósito de Deus não precisam se envolver com política, pois praticam a “religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada” ao “cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades” sem “se deixar corromper pelo mundo” [Tiago 1:27]. A menos que certas lideranças tenham outros interesses diferentes do proposto por Deus, quanto mais longe a Igreja está da política que procura defender interesses próprios com base em troca de favores, melhor.
Aprendemos sobre este assunto tanto com o que Deus nos revela na Bíblia quanto com o que Ele permitiu acontecer ao longo da história humana. O maior exemplo bíblico é Jesus que jamais demonstrou motivações políticas e por isso foi rejeitado como o Messias pelos judeus que queriam alguém que os libertasse do domínio romano. Eles esperavam uma libertação política, mas Jesus ofereceu algo maior, uma libertação espiritual.
Em contrapartida Jesus não ficou indifirente às necessidades do povo. Ele pregou a justiça e a bondade como atitudes próprias de quem ama ao próximo [Mateus 25:34-40] sem esperar nada em troca [1 Coríntios 13:1-7]. Isto não quer dizer que cristãos não devem se envolver com questões políticas, mas que suas motivações não devem buscar interesses próprios nem usar a Igreja como instrumento para a política, afinal, as coisas de Deus são de Deus e as de César, de César [Mateus 22:21].
Já a história humana nos mostra que a maioria das vezes – senão todas as vezes – em que Religião e Política foram misturadas em favor de motivações e ideologias puramente particulares e restritas a determinados grupos de interesse os resultados não foram nada bons. Assim começaram as cruzadas, países foram divididos, grupos de terrorismo surgiram e a lista segue ladeira abaixo.
Estamos próximos das eleições municipais e a mesma velocidade em que se aproximam, cresce o número de artigos em blogs cristãos (como este) e não cristãos, assim como a quantidade de notícias e matérias em jornais, revistas e programas de televisão que abordam o envolvimento e a influência de certas igrejas com a política.
O tema é tão interessante quanto preocupante. Ao acompanhar as notícias e observar o modo como certas denominações levantam seus candidadtos ou declaram apoio a determinados partidos não há como recusar a semelhança entre seus argumentos e o Catecismo Imperial Napoleônico de 1806. Se perguntássemos a estas lideranças sobre as razões para votarmos nos seus candidatos, as respostas seriam muito próximas do que segue:
Pergunta: Quais são as obrigações dos Cristãos para com os príncipes que os governam, e quais são em particular nossas obrigações para com Napoleão I, nosso Imperador?
Resposta: Amor, respeito, obediência, fidelidade, serviço militar, tributos ordenados para a preservação e a defesa do Império e de seu trono; nós também devemos a ele preces fervorosas por sua segurança e pela prosperidade espiritual e temporal do Estado.Pergunta: Porque nós temos estas obrigações para com nosso imperador?
Resposta: Primeiro, porque distribuindo abundantemente talentos para nosso imperador tanto na paz quanto na guerra, Deus o colocou como nosso soberano e fez dele o ministro de Seu poder e Sua imagem na terra. Honrar e servir nosso Imperador são, portanto honrar e servir o próprio Deus. Em segundo lugar, porque nosso Senhor Jesus Cristo… nos ensinou o que nós devemos ao nosso soberano…; Ele nos ordenou dar a César o que é de César.Pergunta: Não há motivos especiais que devem unir-nos mais fortemente a Napoleão, nosso Imperador?
Resposta: Sim: Por ser ele o único que Deus nos deu nos tempos difíceis para reestabelecer o culto público da sagrada religião de nossos pais e para ser seu protetor. Ele reestabeleceu e manteve a ordem pública por sua profunda e ativa sabedoria; ele defende o Estado com seu poderoso braço; ele se tornou o ungido do Senhor através da consagração que ele recebeu do pontífice Soberano, chefe da Igreja universal.Pergunta: O que se deve pensar daqueles que podem falhar em suas obrigações para com nosso Imperador?
Resposta: De acordo com o apóstolo Paulo, eles estariam resistindo à ordem estabelecida pelo próprio Deus e seriam dignos da danação eterna.Pergunta: As obrigações para com nosso Imperador comprometem-nos igualmente com seus sucessores?
Resposta: Sim, indubitavelmente; pelo que lemos na Sagrada Escritura que Deus, Senhor do céu e da terra,… dá impérios não apenas para uma pessoa em particular, mas também para sua família.— Catecismo Imperial de 1806¹
Em sua época este guia era ministrado nas escolas francesas onde os alunos o decoravam para permanecerem fiéis aos seus “deveres cristãos” que eram definidos como a obediência ao Imperador, o pagamento de impostos e o serviço militar. Grosso modo, sua intenção era fazer da França o “povo eleito” e atribuir a Napoleão a aprovação divina para proteger e guiar o povo em uma Guerra Santa contra o mundo não-católico, começando pela Inglaterra anglicana.
Napoleão não agia sozinho, ele mantinha uma rede de interesses políticos entre a Igreja Católica e o Estado para manter seu governo. E foi esta estratégia política, disfarçada de defesa da fé, que fez da França, o país que um dia havia inspirado o mundo com sua Revolução baseada nos princípios de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, um Império que pretendia dominar o mundo por pura vaidade e apenas usava a igreja “como um instrumento cômodo de polícia espiritual para a direção das massas”. E a catástrofe que seguiu da associação entre Napoleão e a Igreja Católica dispensa comentários.
Mas, Deus que ama a justiça e a retidão e enche a terra com a sua bondade [Salmos 33:5] pode sim separar homens que amam a justiça e odeiam o mal para trazer alegria [Salmos 45:7], ainda que isto custe suas próprias vidas [João 15:13].
É o exemplo do Pastor Martin Luther King Jr. que dedicou toda sua vida pela busca de justiça e dignidade para TODOS os negros americanos, não apenas os negros cristãos protestantes de sua denominação. Martin Luther King morreu lutando por um sonho que não era apenas dele, mas de toda uma nação. Graças a sua luta o atual presidente americano é um negro, Barack Obama, que se vivesse nos tempos de Martin Luther King talvez não pudesse nem votar. Curiosamente, Martin Luther King Jr. jamais se candidatou ou foi eleito para qualquer cargo político que fosse, mas mesmo que tivesse sido eleito, sua luta não perderia o valor, pois não buscava interesse pessoal ou de seu grupo religioso. Ele foi um cristão que revolucionou positivamente a política de um país – e do mundo – sendo Igreja e não um político.
Aproveitar a fé das pessoas para misturar religião e política sempre foi, continua sendo e provavelmente jamais deixará de ser arriscado tanto para a igreja quanto para a sociedade. Quando esta fórmula não passa de mero capricho humano em nome de um Sistema que muitas vezes o próprio Deus não aprova são trocados valores eternos por benefícios temporários que logo se tornam em consequências ruins para a Igreja e para o mundo.
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[1] Robert Holman, Napoleonic Propaganda, Bâton Rouge: Louisiana State University Press, 1950. citado por Raquel Stoiani, Da Espada à Águia: Construção Simbólica do Poder e Legitimação Política de Napoleão Bonaparte – Dissertação de Mestrado (História Social) – USP. São Paulo, 2002, p. 75

Como disse o Pr. Ed René Kivitz em seu blog:
“[…] não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam. Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. (Desmond Tutu) Vale a reflexão. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político. Quando a igreja extrapola seu papel social e assume a disposição de “voto coletivo”, rouba do cidadão sua prerrogativa de liberdade de consciência e opção ideológica e político partidária, bem como seu direito inalienável de votar livremente. Nenhum apoio institucional é vazio de interesses particulares. A igreja que apóia um candidato está explicitando sua expectativa de retribuição e recompensa. Em outras palavras, está colocando à venda aquilo que deveria estar fora da lógica de mercado, a saber, o voto e o mandato público.”
Ou seja, os lideres evangélicos deveriam incentivar que os membros de suas denominação sejam pessoas pensantes, que tomem decisões baseadas em fatos e não vendam seus votos nem se deixem atingir por esforços de campanhas politicas tendenciosas. Mas que votem com compromisso, antes, tendo feito pesquisas e sabendo bem quais sãos os interesses dos partidos e de seus candidatos. Fazendo assim exerceríamos o nosso direito de forma correta e banalizaríamos a tão gritante e vergonhosa farra pré-eleitoral.