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O autor da carta aos Hebreus destinou o que está escrito lá para a Igreja, não adianta tentar atribuir o texto sagrado aos que sequer creem no sagrado, ou – pelo menos – não creem como nós cremos. O que está escrito ali não é para os outros, mas para nós. É sobre a fé cristã para os que professam fé em Cristo.
“Os que já viram a luz, provaram o sabor dos céus, foram parte da obra do Espírito Santo, experimentaram pessoalmente a absoluta bondade da Palavra de Deus e os poderes que se manifestaram em nós e, ainda assim, com desprezo, viraram as costas para tudo isso e lavaram as mãos — bem, eles não podem começar tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. É impossível, porque crucificaram Jesus outra vez. Eles o repudiaram em público.” — Hebreus 6:4-6 (A Mensagem)
Mais preocupante que a quantidade dos ditos cristãos indignados com uma encenação da crucificação numa manifestação de não-cristãos, é o fato de existirem tantos desvios entre os próprios cristãos que acabam por crucificar e envergonhar publicamente o Cristo com suas hipocrisias e loucuras religiosas.
Curiosamente, nestes casos são poucos os que denunciam ou protestam, com tanta energia, sobre o desrespeito contínuo cometido atrás de certos púlpitos, de cima dos palcos e trios elétricos nas “Paradas do Orgulho Gospel“.
Sim, não dá pra acreditar que exista “Marcha para Jesus” quando o palco é o destino e ninguém caminha na direção dos que tem sede, fome, frio ou estão presos, ou não foi essa a única marcha que Jesus nos deixou?
Há uma história sobre o encontro entre o missionário cristão E. Stanley Jones e Gandhi, nela o missionário perguntou:
— Senhor Gandhi, apesar de sempre citar as palavras do Cristo, por que é tão inflexível e sempre rejeita tornar-se seu seguidor?
Gandhi respondeu:
— Ó! Eu não rejeito seu Cristo. Eu amo seu Cristo. Apenas creio que muitos de vocês cristãos são bem diferentes do vosso Cristo.
Talvez o desrespeito aos símbolos que dizemos representar o Cristo não seja maior que o desrespeito dos próprios cristãos contra a maior representação do cristianismo que é a manifestação prática do recebemos gratuitamente dEle: amor e perdão por misericórdia e graça. Caso contrário, o cristianismo não passa de mais uma religião de símbolos, imagens, rituais e sacrifícios e não é mais a definição última de espiritualidade que se manifesta em ações, piedade em movimento constante na direção dos que necessitam.
Preocupante mesmo é essa religiosidade que produz cristãos sem Cristo, que transforma gente que deveria se sentir justificada, e não justa, em justiceiros.
Mas, Deus que é justo nos dá uma oportunidade para reflexão, para repensar algumas atitudes que talvez nos tornem ainda mais condenáveis que aqueles usados como massa de manobra para interesses políticos-ideológicos por causa de suas angústias e dores.
Não, não é sobre aceitar ou ignorar o pecado, nem sobre se incomodar, ou não, com as provocações, mas sobre temer profundamente que nossos próprios pecados e idiossincrasias estejam levando o Cristo novamente pra cruz em vez de levar os pecadores para a cruz de Cristo.

A indignação dos cristãos é válida, mas o que me impressiona é que a maioria de nós não se enfurece com tantos desvios de conduta dentro da própria igreja. Usamos dois pesos e duas medidas.